Casa Espírita Cristã Maria de Nazaré

Tia Vera
(“Caprichemos para fazer o melhor doando aquele pequenino amor que a gente tem.” – Vera Simões)

Hoje a Casa Espírita Cristã Maria de Nazaré é uma associação civil sem fins lucrativos, comerciais ou políticos. É uma entidade de caráter social e religioso. Foi fundada em 1º de agosto de 1966 com sede na Rua Um, sem nº , na Rocinha.

Em meados de dezembro de 1961, Vera Simões, acompanhada de suas duas filhas adolescentes, inicia o culto do lar em seu apartamento no Leblon. Aos poucos, o grupo foi crescendo, com a presença de familiares e amigos. Com o passar do tempo, foi necessário o acréscimo de assentos, ocupando com bancos os cômodos da casa, inclusive o corredor e a cozinha, para atender a todos os que buscavam ali o alento espiritual. Surgia, assim, o "Culto do Lar Rita de Cássia", santa de devoção de Vera, quando católica. Vera Simões não pensava em transformar seu culto do lar Rita de Cássia em uma casa espírita propriamente dita.

Algum tempo depois, Vera sobe a Favela da Rocinha pela primeira vez, pois sua empregada, moradora da comunidade, contou-lhe a história de uma jovem vizinha que, grávida, fora rejeitada por seu pai e, desgostosa, pensava em suicídio. Vera apiedou-se da moça e, numa atitude amorosa, resolveu visitar a jovem com o intuito de confortá-la e encorajá-la a conservar sua gravidez.

Acompanhada pela filha de sua auxiliar e levando alguns presentes para a futura mãe e seu bebê, lá se foi Vera, sem sequer imaginar que aquela visita se revestiria de extraordinária importância em sua vida, como na de todos os frequentadores da atual “Casa Espírita Cristã Maria de Nazaré”.

Lá chegando, com a doçura e serenidade que lhe caracterizavam a alma, conversou com os familiares da jovem e orou com eles; um pequeno trecho de "O Evangelho Segundo o Espiritismo" foi lido e comentado: Vera pediu bênçãos para aquele lar e principalmente para o espírito reencarnante e sua mãe. Aquele ato sincero e espontâneo modificou inteiramente a postura do pai, que desde logo passou a aceitar o fato como uma dádiva de Deus. Vera comprometeu-se com a família a voltar no sábado seguinte.

Nos demais sábados, ganhou a companhia de duas amigas e de alguns colegas de trabalho. A reunião na casa da jovem crescia em frequência: vizinhos e familiares compareciam, interessados na oração e no atendimento fraterno oferecido. Além disso, aumentava também o número de pedidos de visitas a outros lares, que iam desde as preces para doentes distantes até distribuição de roupas e objetos domésticos.

À Sombra da Jaqueira

Como era de se esperar, o pequeno lar já não mais comportava o crescente número de participantes. Vera resolveu, então, continuar a atividade caritativa e doutrinária em local mais amplo: debaixo de frondosa jaqueira em terreno baldio, no Laboriaux.

À sombra daquela jaqueira, Vera e seus amigos passaram a ler semanalmente trechos do “Evangelho Segundo o Espiritismo”, seguidos de breve comentário, e a ajudarem materialmente com o fornecimento de alimentos, roupas e objetos diversos. A divulgação da doutrina Espírita tornava-se, então, paulatinamente acessível ao entendimento da pequena multidão que já se formava em torno do grupo, com cinco ou seis frequentadores do "Culto do Lar Rita de Cássia".

Certo dia, Maria, jovem mãe, acerca-se de Vera e pede-lhe que vá até seu barraco, pois seu filho Reginaldo, de 6 anos, vítima de paralisia infantil, vivia num berço imóvel e sem falar. Vera atendeu ao pedido. Seguiram-se outros. Eram pessoas que, impossibilitadas de ir até o Laboriaux, se valiam da visita do grupo, após a reunião pública debaixo da jaqueira. Uma dessas pessoas foi José Antonio, portador de grave tuberculose, que vivia com a mulher e quatro filhos. Ele desejou que Vera iniciasse em sua casa o Culto do Lar. Dotados de algum conhecimento da Doutrina Espírita e possuidores de alguns livros, José Antonio e seus familiares nutriam grande e recíproca afinidade com o grupo de Vera. Além do alimento espiritual, Vera e seus amigos forneciam a alimentação e os remédios necessários, fruto das campanhas feitas por ela junto aos companheiros de trabalho e aos frequentadores do seu "Culto do Lar Rita de Cássia" e até mesmo a vizinhos e comerciantes de sua rua.

Contudo, apesar de toda a ajuda, José Antonio piorava e, ante a gravidade de seu estado, desejou voltar à sua terra natal, Campina Grande, para ali desencarnar. No intuito de angariar recursos para a viagem, colocou seu casebre à venda. Vera, apiedada, fez nova campanha junto a seus colegas de trabalho e conseguiu comprar, em 1966, a pequena casa de madeira de José Antonio, que assim, voltava feliz para o seio de seus familiares. Vera também conseguiu compradores para os móveis e utensílios do rapaz, aumentando desta forma os recursos necessários para a mudança.

O ponto de luz inicial da "Escola Espírita Cristã Maria de Nazaré" foi ali implantado, em uma única sala. As condições de conforto eram precárias: não havia banheiro, nem água, nem luz. Com a ajuda dos frequentadores assistidos no Laboriaux, surgiram os bancos: cada família levava o seu. Conseguiu-se também uma mesa comprida, retirada de uma obra abandonada na vizinhança. Assim era o novo núcleo onde o grupo passou a reunir, aos sábados pela manhã, aqueles irmãos necessitados e carentes que buscavam a Luz do Cristo.

O número dos frequentadores aumentava e, sempre através de campanhas de arrecadação, foi possível adquirir um barraco e um pequeno espaço de 2 x 2 m, ambos ao lado da sede. Iniciou-se, então, nestes últimos cômodos, a Evangelização Infantil.

A 1o de agosto de 1966, redigiu-se a primeira ata de fundação da "Escola Espírita Cristã Maria de Nazaré".

Já na década de 1970, mediante campanha de arrecadação, construiu-se um "puxado" do tipo palafita, onde passou a funcionar o Ambulatório Dr. Hermann.

A casa então já se compunha de três unidades: a Sede (casa de José Antonio), o Núcleo de Evangelização e o Consultório, acoplado à pequena farmácia.

Em 1973, diante da demanda de recursos financeiros para cobrir as despesas com o atendimento na Rocinha, realizou-se o primeiro "Bazar de Pechinchas". Uma loja vazia situada à Rua Visconde de Pirajá, 23, Ipanema, chamou a atenção do grupo e, depois de longa pesquisa para identificação do seu proprietário, então comerciante em Copacabana, que, após ouvir com paciência todo o relato sobre o trabalho na Rocinha, imediatamente cedeu o uso da loja, onde o Bazar permaneceu por 15 dias. Alguns meses depois, Vera foi procurada pelo proprietário da loja que, interessado em ajudar a obra, emprestou-lhe quatro apartamentos, então desocupados, situados no mesmo edifício da loja, para serem utilizados pelo grupo.

Restavam ainda dois apartamentos e um pequeno terraço ao ar livre na cobertura no prédio da rua Visconde de Pirajá no 23.

Vera, há muito, acalentava o sonho de construir uma creche na Rocinha, mas este projeto seria inviável pela carência de instalações elétricas, água e esgoto. Veio-lhe a intuição de aproveitar aquele espaço disponível para instalar a sonhada creche.

Novamente, árduo trabalho de captação de recursos financeiros e mão-de-obra para tal fim. Finalmente, em 18/06/1974, inaugurou-se a "Creche Jardim de Scheilla", em Ipanema, mantida pela "Escola Espírita Cristã Maria de Nazaré", com sua sede na Rua Um, na Rocinha.

Mais tarde, na cobertura, ampliou-se a área do pequeno terraço já existente, que se destinaria ao lazer das crianças e construiu-se um banheiro e uma sala ampla, onde a princípio funcionou uma oficina de artesanato. Assim, após a ampliação, a creche, que só recebia crianças de seis meses a quatro anos, passou, a mantê-las até os seis anos de idade, nível da pré-alfabetização.

Nos sábados do ano de 1978, vivenciou-se um aumento progressivo no número de frequentadores da Comunidade da Rocinha, cujo espaço parecia cada vez menor. Na área ocupada pelos barracos já adquiridos, parecia impossível construir ou ampliar alguma coisa. Iniciou-se, então, incessante busca de novo local para a Escola.

O primeiro movimento foi em direção ao Laboriaux – o lugar da antiga jaqueira. Era local de propriedade da Prefeitura, segundo os primeiros informes. Em audiência com o então Prefeito da Cidade, soube-se que o espaço havia sido cedido à Secretaria Municipal de Turismo. Prosseguiu-se a busca por quase um ano, através de audiências com as autoridades municipais, até que o pedido foi indeferido em 1981. Vera, então, num “arroubo” mediúnico, afirmou: "É sinal que o 'ponto de luz' tem que permanecer dentro da favela!"

Uma Casa sobre a Rocha

Diante daquela orientação espiritual e mediante o impulso de intensa coragem e fé, únicos recursos que o grupo possuía, sem nenhuma ajuda inicial ou recurso financeiro próprio, os quatros barracos foram destruídos para que ali surgisse uma sede para a Escola. O terreno era íngreme, sobre pedra. De engenheiros amigos consultados, veio a afirmação de que o solo era firme, formado por um único bloco de rocha maciça.

A construção foi iniciada em 1981. Sem abrigo, novamente, o grupo continuou suas atividades doutrinárias e assistenciais na quadra, carinhosamente cedida pelo então presidente, do "Bloco Carnavalesco Sangue Jovem", dentro da Comunidade. Ali o trabalho funcionou todos os sábados – mesmo sob chuva, pois a quadra não era coberta. A primeira parte foi concluída em 1984. Seus quatro andares, construídos sem projeto inicial, acompanhavam o aclive do terreno (um bloco único de rocha), e foram sendo ocupados gradativamente. Atualmente, a Escola se divide em 5 pisos e mais 5 anexos.

Creche Jardim de Scheilla

Ressurgiu a ideia de se fundar uma creche na Comunidade. Como, na ocasião, a creche em Ipanema só atendia a crianças de até quatro anos, a da Rocinha passou a complementar o trabalho, aceitando crianças de quatro a seis anos.

A Escola permaneceu durante quatro anos em duas creches, onde uma funcionava como complemento da outra. Naturalmente, as mães daquelas crianças ficaram felizes em poder contar com o conforto da localização da creche na proximidade de seus lares. Então se pensou: "Por que não transferir a creche de Ipanema também para a Rocinha?"

Com a unificação das creches na Rocinha, os dois apartamentos e o terraço da rua Visconde de Pirajá foram ocupados pelo departamento mediúnico do Rita de Cássia. Ali eram realizados os trabalhos de desobsessão, tratamento espiritual e estudo sistematizado da Doutrina Espírita. Esse Departamento foi batizado como "Grupo Deolindo Amorim", em homenagem ao grande amigo da casa e trabalhador incansável da causa espírita. Suas atividades tiveram continuidade até 1991, quando o prédio foi entregue a seus novos proprietários.

O prédio 23 da Rua Visconde de Pirajá foi utilizado durante 17 anos sem ônus financeiro para a Escola, devido ao bom coração do proprietário, que, além de ceder o seu patrimônio ao trabalho do bem, ainda durante todo aquele tempo colaborava nas reformas e manutenção do imóvel. Deus o abençoe!

Em 1992, houve o falecimento de Vera Simões.

O Rita de Cássia

O Culto do Lar Rita de Cássia, na casa de Vera, já contava com duas reuniões de estudos e oração às segundas-feiras e o início das atividades de uma oficina de crochê, que funcionava antes da reunião da tarde, o que atraiu logo grande número de interessadas. Era o início da década de 1980 e a casa de Vera não atendia mais a todas as atividades ali realizadas. Resolveu-se procurar um espaço mais adequado, para dar continuidade aos trabalhos de maneira mais confortável e capaz de receber as pessoas que, cada vez mais, buscavam a Doutrina. A manutenção financeira ficou sob a responsabilidade dos frequentadores.

Assim, foi alugada a sala 705 do Edifício Vitrine do Leblon, na Av. Ataulfo de Paiva no 1079, sob a responsabilidade de Vera Simões.

Dois anos mais tarde, em 1983, com o reajuste do aluguel da sala 705, a crescente procura de novos frequentadores levou o grupo a abrir espaço para outras atividades espirituais. Surgiu a ideia de constituir um fundo de reserva para futura compra de imóvel destinado a abrigar as reuniões. A partir daquele ano, a Escola Maria de Nazaré incorporou o Culto do Lar Rita de Cássia como o Departamento Doutrinário da Escola, no Leblon, que passou a se chamar "Grupo Rita de Cássia de Estudos Espíritas".

Em outubro de 1984, as reuniões passaram a ser abertas ao público em geral, nas recém alugadas salas 809 e 810. Esta iniciativa ocorreu devido ao contínuo aumento da frequência ao Grupo Rita de Cássia e transformou inexoravelmente o Culto do Lar da casa da Tia Vera.

Quatro anos depois, com o esforço dos frequentadores, adquiriu-se a sala 808. O Grupo Rita de Cássia passou a funcionar em 3 salas interligadas: 809 e 810 (alugadas) e 808 (própria).

Gradativamente, foram aparecendo, no período de 1990 a 1997, oportunidades de alugar mais cinco salas e de adquirir aquelas duas anteriormente alugadas, no oitavo andar do edifício Vitrine do Leblon. A concentração num mesmo local facilitou o desenvolvimento das atividades mediúnicas e doutrinárias, que se constituíam no "Grupo Rita de Cássia de Estudos Espíritas", no Leblon, e no Departamento Mediúnico-Doutrinário da Escola Espírita Cristã Maria de Nazaré, com sede na Rua Um, S/N, na Rocinha.

Em março de 2003. o Condomínio do Edifício Vitrine do Leblon moveu ação de despejo na Justiça contra o Rita, alegando, dentre outras coisas, a proibição de ocupar andar superior ao 3o piso, de acordo com a legislação em vigor. Após exaustivo processo de negociação e tentativa de acordo, o Condomínio obteve ganho de causa. A sentença permitia a utilização das salas próprias - 808, 809 e 810 - sem o exercício das atividades públicas - reuniões e cursos.

Após muita procura, dificultada pela razão social da Casa (Escola Espírita Cristã Maria de Nazaré), que afugentava os proprietários, cujos advogados entendiam que o termo “Escola” impediria uma eventual ação de despejo, encontrou-se o prédio de número 1212, da Avenida General San Martin, também no Leblon, onde anteriormente funcionava uma clínica médica. Era uma solução cara, mas provisória, visto que serviços extremamente importantes (atendimento fraterno, desobsessão, palestras e os demais) não poderiam ficar inativos. Haveria ainda o perigo, pela descontinuidade das atividades, de perder parte dos frequentadores.

Era necessário conseguir, o quanto antes, um espaço definitivo. Surgiu então a oportunidade de compra do imóvel de três pavimentos situado à Rua Almirante Guilhem, no 265, no Leblon. As três salas no Edifício Vitrine do Leblon, bem como a loja D da Rua Visconde de Pirajá no 180 (vide o capítulo "Bazar Cáritas"), foram vendidas e deflagrou-se a Campanha do Tijolo, para a arrecadação de fundos, com a qual todos colaboraram de forma efetiva. Adquiriu-se o imóvel e a campanha continuou, para a construção de mais dois pisos, visando à instalação final na nova casa própria.

Oficinas

Oficina Meimei

Por iniciativa do ceramista Luiz de Castro Lima, uma fração do terreno ocupado pela Fundação Américo Viveiros, na Estrada da Gávea, 16, foi cedida à Escola para a fundação de uma pequena oficina de cerâmica, que mais tarde diversificou suas atividades. Assim, surgiu a "Oficina Meimei", destinada a atender jovens da Comunidade da Rocinha, dando-lhes a oportunidade de uma ocupação útil nos períodos livres das obrigações escolares, proporcionando-lhes, inclusive, meios de usar profissionalmente os conhecimentos ali adquiridos. A partir de 2002, o local utilizado na Gávea foi retomado pelos antigos proprietários e a oficina passou a funcionar no Clube Muarama, situado igualmente na Estrada da Gávea, em espaço cedido pelo projeto “Rumo Certo”. Hoje, ocupa o Anexo 1 da Sede na Rocinha.

Oficina Conceição Carneiro

Produção de enxovais para recém-nascidos, distribuídos para as gestantes freqüentadoras do curso bimensal promovido pela Escola, na Comunidade da Rocinha.

Grupo Francisco de Assis - Quentinhas

Em outubro de 1990, iniciou-se o trabalho de confecção e distribuição de "quentinhas" aos moradores das ruas do centro da cidade. Localizado primeiramente nas dependências de serviços do Centro Espírita "Joana D’Arc", com sede no rio Comprido, até dezembro de 1992. Durante três anos, funcionou no "Comitê do Betinho", situado à rua Conde de Irajá, em Botafogo. Durante um ano, funcionou sem espaço físico, distribuindo apenas sucos e sanduíches, preparados pelos voluntários em suas próprias residências. Em 1996, foi alugada a casa 10 da Rua São Clemente no 176, Botafogo, onde se mantém até hoje, funcionando 3 vezes por semana.